"Esse texto procura questionar a questão da nossa identidade, um componente tão importante para a nossa sustentabilidade"
E nossa identidade?
Dois grupos de questionamentos perambularam por minha cabeça quase o dia inteiro, um sobre a construção da minha identidade e outro sobre a pressão externa que essa minha identidade sofre para ser reprimida e “normatizada” segundo interesses que parecem figurar acima do Bem e do Mal.
Esses questionamentos são resultados de angustias ainda mal resolvidas que agora procuro saná-las ou pelo menos aliviá-las, afinal para entender minha identidade se faz necessário perguntar: quais são os substratos da minha identidade? Com que quero me identificar? Por quais interesses?
Minha identidade é fruto da mistura das etnias européias, indígenas e africanas, a isso usamos o termo – que já se tornou moda aqui no Brasil – miscigenação, mas o que me leva a vangloriar-me da parte européia do meu passado e não da parte nativa, quais preconceitos fazem identificar-me melhor com o dominador do que com o dominado?
Essa visão eurocêntrica é fruto de uma relação que outrora era mais visível na história do nosso país, as relações entre colonizador e colonizado, isto é, o colonizado para ter uma ascensão social, sempre negou as suas tradições indígenas, e aceitou a tradição européia como hegemônica na constituição de sua família e de seu ethos, essa visão foi passada para nós no decorrer da história, por textos, nas rádios e na TV. Tanto é que apesar de atualmente essa visão preconceituosa sobre nossas tradições ser atacada, existindo uma tentativa de valorização das culturas indígenas como integrante de nossa cultura, é comum ainda encontrar nas ruas expressões como: “isso é coisa índio” referindo a cultura indígena como selvageria, parecendo até que foram os índios responsáveis pelos genocídios gritantes na nossa história mundial ou pela lógica mortífera do capital.
Não é difícil encontrar na mídia – a maior formadora de opinião do nosso tempo – referências ao índio como ”o outro” e não como “a gente”, o índio é sempre uma coisa anômala da nossa sociedade, não é mostrado como parte integrante de nossa cultura. E pior, quando um jornalista visita alguma tribo, a visão que se tem é que índio só faz parte da nossa cultura quando ele joga futebol, está trajado como branco, ou conhece alguns jogadores de futebol como o Ronaldo ou o Kaká.
Essa visão sobre o indígena é extremamente prejudicial para uma formação democrática da nossa cultura, pois relegamos a esses nossos ancestrais o lugar do diferente, da negação. Ainda estamos voltados para a Europa, e não para nós.
Desta forma é possível entender – mas não aceitar – a atitude que temos perante os vestígios indígenas, relegamos a eles a “jaula” de um museu, porque o indígena ainda para nós é um silvícola.
Além do mais, essa cultura indígena sofre com a desumana onda do progresso tecnológico, assim se faz necessário perguntar: o que é mais interessante conservar ou mudar, a tradição ou o paradigma do inevitável progresso do Mundo industrializado e capitalizado? E quais interesses que patrocinam a imposição dessa idéia sobre o progresso?
Ora, no sistema capitalista, como já preconizava Karl Marx “Tudo que é sólido derrete-se no ar”, assim sendo ele privilegia o novo, o que está por vir, tornando o antigo, algo inutilizável e execrável, pois economicamente não rende tanto quanto a novidade, o atual. Desta forma, qualquer contra-discurso a essa tendência, acaba por ser massacrada pela mentalidade – já há muito tempo hegemônica – que cultua o atual, e com isso corre desesperadamente atrás do que convencionamos chamar de “top de linha”.
Essa mentalidade acaba por tornar todo os vestígios dos nossos antepassados se não encontrados e rapidamente trancafiados em algum museu ou local para estudo, passiveis de serem cobertos por toneladas e toneladas de concreto e ferro. Pois o progresso não pode parar.
E se alguém se colocar em frente a esse progresso acaba por mexer com toda uma gama de interesses que figuram a cima do Bem e do Mal, pois querem algo mais importante que bem social (segundo esses interessados) o lucro. Isso fica explicito nos comerciais de TV, nos outdoors, na cultura pop alienante, nas criticas do senso comum às ciências humanas, na visão pejorativa sobre os não lançamentos e ao repúdio aos saudosistas.
Daí crucificar esse que querem entender o passado, ou manter tradição, pois para aqueles que cultuam o novo e o lucro, este se põe como obstáculo e o resultado disso já sabemos, ou se aprisiona os vestígios da cultura indígena tornando passível de estudo e mostrando em nível de senso comum sempre como algo diferente de nossa cultura europeizada, ou enterramo-la com concreto, ferro e novas tecnologias.
Levi Adriano Nogueira
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